Carta do Pe. Rifan para Dom Rifan

Reproduzimos aqui a bela carta que o Pe. Fernando Rifan tinha escrito para Dom Gérard OSB pedindo-lhe não fazer um acordo com Roma. É exactamente a posição e os argumentos da Fraternidade São Pio X a respeito do acordo de Campos com Roma. Só o destinatário mudou; esperamos que concordará com o remetente!

 

Le Barroux, 3 de Julho de 1988

 

Caríssimo Dom Gérard Calvet,

Laudetur Jesus Christus !

 

A amizade sincera que nos une, ao senhor e ao Mosteiro do Barroux e do Brasil, me permite dizer-lhe um pouco os sentimentos do meu coração sacerdotal.

Creio que só o amor de Nosso Senhor, da Santa Igreja e das almas nos move.

Tomei conhecimento da visita dos enviados de Roma no nosso caríssimo Mosteiro do Barroux. Certamente vão propor acordos.

Ao estudar detalhadamente o caso de Dom Lefebvre, pude constatar a verdadeira cilada em que procuravam nos envolver. Eles não são sinceros. Eles o demonstraram: Logo depois de assinado o protocolo, eles já queriam mais: que reconhecêssemos os erros que cometemos (doutrinários); depois, a celebração de uma Missa nova em S. Nicolas, etc…

Vejamos o que aconteceu com Dom Augustinho! Começou apenas se separando de nós. Agora já está dando a comunhão na mão! O caminho é escorregadio. Começou apenas querendo a legalidade. Depois teve que receber o bispo para celebrar missa no mosteiro. Terminou com a comunhão na mão!

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Vejamos o que aconteceu com Dom Augustinho! Começou apenas se separando de nós. Agora já está dando a comunhão na mão! O caminho é escorregadio. Começou apenas querendo a legalidade. Depois teve que receber o bispo para celebrar missa no mosteiro. Terminou com a comunhão na mão!

Nosso Senhor mandou-nos unir a simplicidade da pomba à esperteza da serpente.

Caríssimo Dom Gérard, o amor que temos ao Mosteiro nos impele a pedir-lhe que não faça esses acordos com quem não quer o bem da Igreja.

O cardeal Gagnon declarou (eu li nos jornais do Brasil) que a táctica do Vaticano agora será tratar bem os tradicionalistas a fim de separá-los de D. Lefebvre. Dividir para vencer. É calar: se ficarmos todos juntos, os inimigos temerão e recuarão. “Vis unita fit fortior”. Se houver acordo da parte de qualquer um de nós, será o enfraquecimento geral da Tradição. O melhor serviço que podemos prestar à Santa Igreja é resistirmos juntos.

Foi em nome dessa união que nós publicamos no nosso boletim “Heri et Hodie” o seu sermão “5 razões para a sagração episcopal”, onde o senhor nos encorajou a ter confiança em Dom Lefebvre Como o seu artigo ajudou a aquietar os ânimos!

E além do mais temos que olhar a situação da Igreja toda e não apenas resolver nosso caso particular. Seria uma traição à causa pela qual juntos combatemos há tanto tempo.

Tanto mais que eles confessaram a táctica insidiosa. Seria o cúmulo da ingenuidade cairmos nesta armadilha.

Outrossim, todos sabem que Deus reservou ao senhor um papel providencial na Igreja hoje. Todos conhecem o bem que Deus faz por seu intermediário e por sua influência.

Caríssimo Dom Gérard, é a “Cristandade de amanhã” que implora a sua firmeza! Ajudai-nos, com o seu exemplo, a ficarmos firmes!

Se o Mosteiro do Barroux faz o tal acordo, o caro Dom Gérard já pensou na turbulência que haverá nos meios tradicionalistas?! E as divisões que ocorrerão dentro do Mosteiro?! No Brasil, a repercussão será péssima. O Mosteiro da Santa Cruz poderá até desaparecer. Os fiéis de Campos lá não irão mais. Os nossos padres não darão mais apoio. As vocações desaparecerão. E os que lá estão talvez saiam todos. Seria uma desgraça! E depois de todo o apoio dado pelos padres de Campos, de todo o esforço feito pelo Padre Possidente pelas vocações ao Mosteiro percorrendo com os monges toda a diocese, uma traição destas seria uma decepção para toda a diocese de Campos e para todo o Brasil.

Tenho recebido muita correspondência do Pe. L.M. de Blignières e acompanhado o seu retrocesso. A revista “30 Giorni” publicou artigo sobre sua nova posição mostrando como os tradicionalistas podem se “converter” ao progressismo. Não sei porque esse empenho dele em defender a liberdade religiosa do Concílio, fazendo uma exegese tradicional do texto, se a própria Roma o interprete no sentido de “Assis” ?! Pelos frutos se conhece a árvore: a árvore boa não pode dar maus frutos. “Assis” é o fruto da “Dignitatis humanae”, o ecumenismo actual, o indiferentismo religioso dos Estados patrocinado pelo Vaticano, a laicização da sociedade, são frutos da “Dignitatis humanae”. E o próprio Cardeal Ratzinger confessou (na entrevista ao “Jesus”) que a “Dignitatis humanae” é o anti-Syllabus !

E não se pode argumentar pela ortodoxia afirmando que, em outro lugar, se disse a verdade. É preciso reconhecer que estamos lidando com modernistas e com um Concílio modernista! São Pio X já os desmascarou na “Pascendi” quando disse: se lemos uma página deles temos a perfeita doutrina tradicional, mas ao virarmos a página nos preparamos com a heresia. É bom lembrar o princípio de que a pior moeda falsa é a que se parece com a verdadeira. E tanto mais perigosa quanto mais se parece!

Caríssimo Dom Gérard, peço-lhe desculpas por escrever tudo isso, mas foi a nossa amizade sincera e o amor do nosso Mosteiro que me levou a escrever tudo o que escrevi. A hora é grave. Continuemos unidos na oração e na identidade de doutrina. Que o seu entusiasmo pela causa da Igreja continue nos animando sempre.

Que Nossa Senhora da Santa Esperança nos guarde unidos no mesmo ideal.

Seu em Jesus e Maria

Pe. Fernando Areas Rifan