São Pedro, Basílica ultrajada

S. Pedro em Roma –uma Basílica ultrajada pela luz de lúcifer

 R. de Mattei – 12 décembre 2015

Os jogos de luz que têm iluminado a basílica possuem uma intenção simbólica, antitética àquelas que são expressas por outros tipos de iluminação, projetores, fogos, que transmitiram ao longo dos séculos o sentido da luz divina. Esta luz esteve extinta a 8 de Dezembro. Entre as imagens e luzes projectadas na basílica, faltaram as de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Imaculada Conceição, da qual se celebra a Festa. S. Pedro ficou inundado duma falsa luz trazida pelo anjo rebelde, lúcifer, principe deste mundo e rei das trevas.

VatiMacaco

A imagem que ficará ligada à abertura do jubileu extraordinário da Misericórdia, não é a cerimónia anti-triunfalista celebrada pelo Papa Francisco na manhã do dia 8 de Dezembro, mas sim o espetáculo grandiloquente Fiat lux: Illuminating Our Common Home, que encerrou este dia, inundando se sons e luzes, a fachada e a cúpula de S. Pedro.

Ao longo do show, patrocinado pelo Grupo do Banco Mundial, imagens de leões, tigres e leopardos de proporções gigantescas projectavam-se na fachada de S. Pedro, que se eleva exactamente sobre as ruínas do circo de Nero, onde as feras devoravam os cristãos. Graças ao jogo de luzes, a basílica dava a impressão de estar de cabeça para baixo, de se dissolver e submergir. Na fachada apareciam peixes-palhaço e tartarugas marinhas, como que evocando a liquefação das estruturas da Igreja, privada de qualquer elemento de solidez. Uma enorme coruja e estranhos animais voadores sobrevoavam em torno da cúpula, enquanto monges budistas caminhando, pareciam indicar uma via de salvação alternativa ao Cristianismo. Nenhum símbolo religioso, nenhuma referência ao Cristianismo: a Igreja cedia lugar à natureza soberana.

 

Andrea Tornielli escreveu que não é preciso escandalizar-se porque, como documenta o historiador da arte Sandro Barbagallo no seu livro Gli animali nell’arte religiosa. La Basilica di San Pietro[1], foram muitos os artistas que no decurso dos séculos representaram uma luxuriante fauna em torno da sepultura de Pedro. Mas se a Basílica de São Pedro é um “zoo sagrado”, como a define com irreverência o autor dessa obra, não é porque os animais ali representados estejam encarcerados num recinto sagrado, mas porque o significado que a arte atribuiu àqueles animais é sagrado, isto é, ordenado a um fim transcendente.

Com efeito, no Cristianismo os animais não são divinizados, mas valorizados em função do fim para o qual foram criados por Deus: o serviço do homem. O Salmo diz: «Deste-lhe o mando sobre as obras das tuas mãos, sujeitaste todas as coisas debaixo dos seus pés: todas as ovelhas e todos os bois e, além destes, os outros animais do campo»[2]. O homem foi colocado por Deus como vértice e rei da criação, e tudo deve ser ordenado em função dele, para que, por sua vez, ele ordene tudo a Deus como representante do universo[3]. Deus é o fim último do universo, mas o fim imediato do universo físico é o homem. «De certo modo, nós somos o fim de todas as coisas», afirma Santo Tomás[4], porque «Deus fez todas as coisas para o homem»[5].

A simbologia cristã atribui aos animais um significado emblemático. Não preocupa ao Cristianismo a extinção dos animais ou o seu bem-estar, mas sim, o sentido último e profundo da sua presença. O leão simboliza a força e o cordeiro a doçura, para nos lembrar a existência de diferentes virtudes e perfeições, que só Deus possui por si mesmo. Na Terra, uma gama prodigiosa de seres criados a partir da matéria inorgânica até ao homem, possui uma essência e uma perfeição íntima, que se expressa pela linguagem dos símbolos.

 

O ecologismo apresenta-se como uma visão do mundo que inverte essa escala hierárquica, eliminando Deus e destronando o homem. O homem é colocado no mesmo plano, em igualdade absoluta com a natureza, numa relação de interdependência, não só com os animais, mas também com os componentes inanimados do ambiente que o circunda: montanhas, rios, mares, paisagens, cadeias alimentares, ecossistemas. O pressuposto dessa visão cosmológica é a dissolução de toda linha divisória entre o homem e o mundo. A Terra com a sua biosfera, forma uma espécie de entidade cósmica geo-ecológica unitária. Ela torna-se algo mais que uma “casa comum”: ela representa uma divindade.

Assim que se encerrou o Concílio Vaticano II acerca de cinquena anos, o tema dominante naquele período histórico parecia ser um certo “culto ao homem”, contido na fórmula de “humanismo integral” de Jacques Maritain. O livro do filósofo francês, com esse título, é de 1936, mas a sua maior influência foi sobretudo quando um leitor entusiasta, Giovanni Battista Montini, que viria a ser papa, com o nome de Paulo VI, quis fazer dele a bússola do seu pontificado. Na homilia da Missa de 7 de dezembro de 1965, o papa Paulo VI recordou que no Vaticano II se produziu o reencontro entre «o culto de Deus que quis ser homem» e «a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus».

Cinquenta anos depois, assistimos à passagem do humanismo integral à ecologia integral; da Carta dos direitos do homem à dos direitos da natureza.

No século XVI, o humanismo havia recusado a civilização cristã medieval em nome do antropocentrismo. A tentativa de construir a Cidade do Homem sobre as ruínas da Cidade de Deus, fracassou tragicamente no século XX, e as tentativas de cristianizar o antropocentrismo sob o nome de humanismo integral, de nada valeu. A religião do homem é substituída pela da Terra: o antropocentrismo, criticado pelos seus “desvios”, é substituído por uma nova visão ecocêntrica. A Ideologia do Género, que dissolve cada identidade e cada essência, insere-se nessa perspectiva panteísta e igualitária.

Trata-se de um conceito radicalmente evolucionista, que coincide em grande medida com o de Teilhard de Chardin. Deus é a “autoconsciência” do universo que, evoluindo, torna-se consciente da sua evolução. Não é casual a citação de Teilhard no parágrafo 83 da Laudato sì[6], encíclica do Papa Francisco na qual filósofos como Enrico Maria Radaelli e Arnaldo Xavier da Silveira salientaram os pontos em contradição com a Tradição Católica. E o espectáculo Fiat Lux foi apresentado como um “manifesto ecologista” que pretendeu traduzir em imagens a encíclica Laudato sì.

Antonio Socci, o qualificou no jornal “Libero” como «uma encenação gnóstica e neopagã com uma inequívoca mensagem ideológica anticristã», observando que «em São Pedro, na festa da Imaculada Conceição, em vez de celebrar a Mãe de Deus, preferiram a celebração da Mãe Terra, para propagar a ideologia dominante, a da ‘religião climática e ecológica’, neopagã e neomalthusiana, apoiada pelas potências do mundo». Uma profanação espiritual (porque aquele lugar — lembremo-nos — é um lugar de martírio cristão).

Por sua vez, escreveu Alessandro Gnochi em “Riscossa Cristiana”: «Portanto, não foi o ISIS (o estado islâmico) que profanou o coração da Cristandade, nem foram os extremistas do credo laico os que massacraram o credo católico, nem os habituais artistas blasfemos e coprolálicos[7] os que contaminaram a fé de tantos cristãos. Não era preciso perquisição[8] ou detector de metal para impedir a entrada dos vândalos na cidadela de Deus: eles estavam já no interior das muralhas e tinham já accionado a sua bomba multicolor e em mundovisão, no calor da sua sala de controlo».

Os fotógrafos, os desenhadores gráficos e os publicitários que realizaram o Fiat Lux sabem o que representa para os católicos a Basílica de São Pedro, imagem material do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. Os jogos de luz que iluminaram a Basílica tinham uma intenção simbólica, antitética àquela expressa por todas as luzes, lâmpadas e fogos, que transmitiram ao longo dos séculos o significado da luz divina. Esta luz estava ausente no dia 8 de Dezembro. Entre as imagens e luzes projectadas na Basílica, faltavam as de Nosso Senhor e da Imaculada Conceição, cuja festa se celebrava. S. Pedro foi imersa na falsa luz trazida pelo anjo rebelde, lúcifer, príncipe deste mundo e rei das trevas.

A palavra “luz divina” não é apenas uma metáfora, mas uma realidade, como realidade, são as trevas que envolvem hoje o mundo. E nesta vigília de Natal, a humanidade aguarda o momento em que a noite se iluminará como o dia,“nox sicut dies illuminabitur”[9], e quando se cumprirão as promessas feitas pela Imaculada em Fátima.

[1] Cf. Libreria Editrice Vaticana, 2008.

[2] Cf. Ps 8, 7-9.

[3] Cf. Gn 1, 26-27.

[4] Cf. In II Sent., d. 1, q. 2, a. 4, sed contra.

[5] Cf. Super Symb. Apostolorum, art. 1

[6] Lire l’article de Francesca de Villasmundo ” in Fiat lux, illuminer notre maison commune» : un spectacle mondialiste sur la façade de Saint-Pierre de Rome en l’honneur de l’encyclique Laudato Si.

[7] Nota do tradutor (NDT). Doença patológica que consiste em dizer obscenidades.

[8] NDT. Investigar com escrúpulo.

[9] Salmo 11.